O rombo registrado pelos Correios em 2025 — um prejuízo de R$ 8,5 bilhões, mais que o triplo do ano anterior — reacende o debate sobre a viabilidade do modelo atual da estatal. O plano anunciado no final do ano prevê fechamento de agências, corte de pessoal, venda de imóveis e um aporte de R$ 12 bilhões por meio de um consórcio bancário. Para economistas ouvidos, medidas pontuais e linhas de crédito ajudam o caixa no curto prazo, mas não alteram o quadro estrutural que levou à queda de receita.

Especialistas destacam duas frentes que exigem decisão: transformação operacional e formato de propriedade. Murilo Viana aponta que a digitalização e a dinâmica do comércio eletrônico deixaram a estatal atrás do setor privado, expondo uma estrutura cara e pouco ágil. Fabio Couto ressalta que recorrer à dívida enquanto a receita segue em queda e os custos fixos permanecem elevados significa aumentar o risco fiscal, sobretudo porque a operação conta com garantia do Tesouro Nacional. A pergunta, segundo ele, é se a governança está traçando uma estratégia de longo prazo ou apenas aprovando um socorro.

A economista e advogada Elena Landau chama atenção para a ausência de um programa claro sobre o papel que se espera dos Correios. Ela defende que é preciso decidir se a empresa manterá a missão postal universal na prática, se concentrará em entregas, ou se partes do negócio serão vendidas ou concessionadas. Sem essa definição, a opção por novos empréstimos tende a criar uma sequência de refinanciamentos e aumento da despesa financeira — um efeito que transferiria o problema para as contas públicas em vez de resolvê‑lo.

Do ponto de vista fiscal e político, a situação impõe escolhas de alto impacto: capitalização, mudança no arcabouço institucional, concessão de serviços ou manutenção de uma estatal reformatada. Cada caminho tem custo e implicações sobre serviço universal, concorrência e contas públicas. A crítica dos economistas é clara: medidas temporárias podem adiar o ajuste e elevar o preço pago pelo contribuinte. A decisão exigirá, portanto, mais que ajustes contábeis — demanda redefinição de modelo e clareza sobre o que a sociedade espera dos Correios.