O Kremlin anunciou esta semana a tomada temporária dos ativos russos da suíça Nestlé e da varejista francesa Auchan, sob o argumento de que se tratam de empresas de países “hostis”. Pelo decreto, as operações ficaram sob o comando da L.E.V. Management, reforçando uma política de maior intervenção do Estado na economia desde o início da guerra na Ucrânia.

A Nestlé — dona de marcas como KitKat e Nescafé — ainda mantém seis unidades na Rússia e mais de 7 mil empregados. Em 2021, as vendas no país respondiam por cerca de 2% do faturamento do grupo, o equivalente a aproximadamente 2 bilhões de francos suíços. A empresa informou que avalia opções para proteger seus direitos e garantir a continuidade das operações; suas ações recuaram 2% em Zurique após o anúncio.

A Auchan opera uma ampla rede de 230 lojas e comércio eletrônico na Rússia, com cerca de 30 mil funcionários, segundo dados públicos. A rede não comentou de imediato. O episódio se soma a casos anteriores — como as aquisições de subsidiárias da Danone e da Carlsberg — e ocorre após um decreto de 2023 que já dava poderes ao governo para assumir ativos de países considerados hostis. Pesquisas e análises apontam para reabertura de privatizações dos anos 1990 como justificativa legal empregada pelo Estado.

Do ponto de vista econômico e político, a ofensiva nacionalizadora acende um alerta: reduz a previsibilidade regulatória, eleva o custo de operar na Rússia e pode acelerar a retirada ou a restrição de atividades de multinacionais. Para investidores, trata-se de sinal negativo sobre propriedade e garantias contratuais; para trabalhadores e cadeias de suprimento, a medida aumenta a incerteza sobre empregos e continuidade de fornecimento. Com as eleições para a Duma em curso e a expectativa de fortalecimento da maioria pró-Kremlin, o cenário tende a consolidar maior controle estatal sobre ativos nacionais e estrangeiros, complicando a narrativa oficial de estabilidade econômica.