Relatórios recentes de mercado ampliaram a aposta de que o atual ciclo de cortes da Selic terá menos espaço do que se estimava. O Banco Pine, em relatório divulgado nesta segunda (25), passou a projetar que a taxa terminará o ciclo em 14% ao ano. O Citi também revisou para cima sua previsão, estimando a paralisação dos cortes em setembro de 2026, com Selic em 13,75%, enquanto a pesquisa Focus apontava 13,25% para o fim de 2026.
O Pine justificou a mudança por uma combinação de choques domésticos e externos: alta dos preços agrícolas, pressão persistente dos derivados de petróleo, inflação global mais resistente e expectativa de leve desvalorização do real. O banco elevou suas projeções de inflação para o IPCA de 2026 a 5,6% e o IGP-M a 7,3% (com IPCA de 5% e IGP-M de 6% em 2027). O relatório também destaca que o conflito entre EUA e Irã e a vulnerabilidade do Estreito de Ormuz aceleraram movimentos já em curso nos juros globais.
Os números internacionais ajudam a explicar o repique: desde o início da guerra, o rendimento do Treasury de dez anos subiu cerca de 62 pontos-base, dos quais 15 vieram da inflação implícita e 47 da alta dos juros reais — sinal de que investidores passaram a trabalhar com uma taxa neutra mais elevada. Para o Brasil, isso reduz a margem do Banco Central para promover cortes sem comprometer o processo de ancoragem das expectativas.
O efeito prático é claro e político: juros mais altos por mais tempo encarecem crédito e freiam o consumo e o investimento, ao mesmo tempo que ampliam o prêmio exigido sobre dívida pública. Esse ambiente torna ainda mais urgente disciplina fiscal e comunicação clara do governo; sem isso, o espaço para convergência rápida da Selic fica comprometido e a economia paga o preço em atividade e confiança.