João Nogueira Batista, conselheiro com experiência em reestruturações empresariais, atribui ao patamar da Selic — superior a 10% ao ano — um fator estrutural que torna inviável a sustentação financeira de empresas de varejo. Em participação no especial "A Crise de Grandes Marcas" do CNN Money, ele explicou que o varejo depende intensamente de capital de giro e que juros reais persistentemente elevados corroem margens, pressionam caixa e elevam o risco de inadimplência.
O cenário, segundo Batista, é multifatorial: além do custo do crédito, disputas internas entre sócios aparecem com frequência nas empresas que foram levadas à recuperação judicial. Ao mesmo tempo, a rápida migração do consumo para plataformas digitais reduziu a atratividade de lojas físicas — elevando custos com espaços ociosos e logística — e expôs redes tradicionais a concorrência com estruturas de custo muito diferentes.
No plano público, o conselheiro critica a ausência de política industrial consistente. Ele aponta esquemas de importação que aproveitaram brechas fiscais originalmente pensadas para pessoas físicas, e cita o caso de perda de participação de mercado por empresas tradicionais como exemplo do impacto. O setor havia pleiteado equiparação da carga fiscal entre operadores nacionais e estrangeiros; avanços nas negociações foram, segundo ele, revertidos por decisões políticas, o que, na avaliação do conselheiro, demonstra falta de agenda de competitividade.
As implicações são amplas: além do aumento de recuperações judiciais, há risco concreto de demissões, desestruturação de cadeias produtivas e pressão sobre instituições financeiras e emprego formal. O diagnóstico apresentado acende alerta para governo e Congresso: sem coordenação de política fiscal, aperto regulatório sobre importações irregulares e medidas que reduzam o custo de financiamento para empresas produtivas, a tendência é de ampliação do desgaste econômico e social, com custo real para a atividade, receitas fiscais e vulnerabilidade do mercado de trabalho.