Um ano após a introdução do programa Crédito do Trabalhador, o mercado de consignado privado para quem tem carteira assinada passou por transformação acelerada. Levantamento da Serasa Experian com operações até abril de 2026 mostra que o número de contratos subiu de cerca de 11 mil para mais de 25 mil, enquanto o montante mensal liberado, segundo o Banco Central, saltou de R$ 1,5 bilhão para quase R$ 11 bilhões. O quadro indica acesso ampliado, mas traz sinais contraditórios sobre a qualidade do crédito concedido.

A contradição aparece no tíquete médio: o valor médio por contrato encolheu 73%, caindo de R$ 8,6 mil para R$ 2,3 mil. Houve também redução do prazo médio dos contratos em 48% e forte aumento da concorrência entre instituições — o número médio de bancos ofertando crédito por empresa subiu de quatro para 21. O recorte da Serasa inclui 191.798 contratos vinculados a 88 empresas e 61 instituições financeiras, o que dá dimensão da rápida adaptação do setor.

O perfil dos tomadores revela o principal ponto de atenção. Segundo a Serasa, 78% dos que contrataram o novo consignado têm mais de 81% da renda comprometida com dívidas e outros compromissos. Além disso, 86% dos contratos foram fechados por trabalhadores com scores mais baixos, enquanto apenas 21% dos tomadores tinham pontuação superior a 600. Esses números expõem vulnerabilidade e elevam o risco de sobreendividamento, sobretudo entre faixa salarial mais baixa.

Além do impacto social, os dados têm implicações políticas e regulatórias. O programa abriu demanda reprimida, como reconhecem executivos do setor, e obrigou bancos a mudar a lógica de concessão. Ao mesmo tempo, amplia o desafio para o governo e para órgãos de defesa do consumidor: como combinar inclusão financeira com proteção contra novas pressões sobre o orçamento das famílias? O resultado exige monitoramento, regras claras e iniciativas de educação financeira para mitigar efeitos adversos sem frear a expansão do crédito.