Sete em cada dez brasileiros perceberam aumento nas despesas do dia a dia nos últimos 12 meses, segundo levantamento do Serasa. A pesquisa revela que apenas 19% da população afirma conseguir administrar pagamentos e despesas sem dificuldades, enquanto gastos com supermercado, contas recorrentes e moradia passaram a representar 57% do orçamento familiar. O custo médio mensal estimado pelo levantamento chegou a R$ 3.520, com as regiões Sul e Sudeste registrando os maiores valores.

O aperto no orçamento tem levado uma parte significativa dos consumidores a recorrer ao crédito como mecanismo de ajuste. Dados do Banco Bari indicam que 60% dos clientes que contrataram crédito nos últimos dois anos fizeram uso principal dos recursos para quitar dívidas. O banco também identifica picos de aprovação em abril, julho e outubro — meses associados a maior planejamento financeiro e expectativa de renda extra — e aponta que parcelas do crédito passaram a ser pensadas com prazos mais longos e maior equilíbrio.

Especialistas consultados pelo levantamento sublinham que há uma mudança de comportamento: o crédito é usado não apenas para consumo imediato, mas como instrumento de reorganização financeira. Ao mesmo tempo, a combinação entre maior peso de despesas essenciais e o uso recorrente de linhas de crédito amplia a vulnerabilidade das famílias, especialmente num ambiente de juros ainda elevados, que encarece a renegociação e torna mais sensível a capacidade de pagamento.

Do ponto de vista macroeconômico e político, o resultado acende alerta. O aumento estrutural do custo de vida e a migração do consumidor para soluções de crédito como extensão da renda limitam o potencial de recuperação do consumo e complicam a narrativa sobre normalização econômica. Para o governo, a equação é delicada: reduzir a pressão sobre as famílias sem abrir espaço para deterioração fiscal exige medidas com foco em eficiência, direcionamento de benefícios e políticas que incentivem renda e previsibilidade.

A saída sugerida pelo próprio levantamento passa por educação financeira e produtos de crédito mais estruturados, mas o diagnóstico é também institucional: será preciso monitorar o ritmo de endividamento e a qualidade das contratações para evitar que soluções de curto prazo virem fragilidade de médio prazo. Os números divulgados por Serasa e pelo Bari mostram uma população mais atenta às condições de crédito, porém mais exposta aos custos fixos que comprimem consumo e renda disponível.