O setor público consolidado — que reúne União, estados, municípios e empresas estatais — fechou março de 2026 com déficit de R$80,7 bilhões, o pior resultado para o mês desde o início da série histórica, em 2002, segundo o relatório 'Estatísticas Fiscais' do Banco Central divulgado nesta quinta-feira (30). O resultado interrompe duas marés de superávit consecutivas registradas em março nos anos anteriores.

O déficit de março foi generalizado: Governo Central, governos regionais e as estatais apresentaram resultados negativos, na soma que compõe as contas públicas consolidadas. O dado isolado para o mês destaca piora pontual, mas ganha peso quando associado à evolução acumulada nos últimos 12 meses.

No acumulado em 12 meses, o setor público teve déficit de R$137,1 bilhões, equivalente a 1,06% do PIB. A Dívida Bruta do Governo Geral avançou para 80,1% do PIB, cerca de R$10,4 trilhões, uma alta de 0,9 ponto percentual em relação ao mês anterior. A combinação entre déficit recorrente e elevação do endividamento amplia a vulnerabilidade fiscal em cenário de custo de capital elevado.

Do ponto de vista econômico e político, o número acende alerta. Financeiramente, aumenta a necessidade de emissão de títulos e a pressão sobre a curva de juros, afetando o custo do serviço da dívida. Politicamente, complica a narrativa oficial sobre controle das contas públicas e amplia desgaste em torno das metas fiscais. A deterioração recente reduz margem para manobras orçamentárias e exige respostas concretas de ajuste ou de fontes alternativas de receita.

O relatório do BC oferece um retrato objetivo do momento: as contas públicas voltaram a registrar tensão. A próxima etapa será observar as reações do governo, do Congresso e dos mercados — e se haverá ajuste crível que reverta a tendência antes que o aumento da dívida se transforme em fator adicional de custo econômico e político.