O setor têxtil intensificou nos últimos dias a pressão sobre o Planalto pela manutenção da chamada 'taxa das blusinhas', aplicada a produtos importados vendidos por plataformas digitais. O movimento, que já se repetiu durante a tramitação da medida no Congresso no ano passado, ganha novo fôlego diante da ausência de uma definição clara do governo. A disputa ficou mais visível após o vice-presidente Geraldo Alckmin defender a taxação, enquanto o presidente Lula classificou a medida como desnecessária.
Em nota, a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) afirmou que empresas nacionais enfrentam custos superiores e que a cobrança ajudou a reduzir distorções de concorrência com mercadorias estrangeiras que entram por plataformas com regras mais flexíveis. A entidade também questionou se importados observam os mesmos padrões trabalhistas, ambientais e técnicos exigidos no país — argumento que busca transferir o debate do preço para condições de competição.
Nos bastidores, empresários do setor reconhecem a sensibilidade política do tema: a taxa encarece produtos importados e pode afetar o bolso do consumidor. Por isso defendem que qualquer decisão seja articulada com a regulamentação da reforma tributária, para evitar soluções pontuais que criem novos vetores de insegurança jurídica e administrativa. O episódio expõe o dilema clássico entre proteger cadeias produtivas nacionais e manter pressão sobre preços ao consumidor.
A indefinição do governo acende um alerta para dois tipos de risco: econômico, pela incerteza sobre regras que impactam competitividade e emprego no setor; e político, pela contradição entre membros da mesma administração, que complica a narrativa oficial. A indústria cobra uma posição clara e um encaminhamento técnico que articule tributação, regulação das plataformas e a reforma tributária, sob pena de prolongar um ambiente de instabilidade que não favorece nem fabricantes nem consumidores.