Brasília — A videoconferência marcada para esta semana entre os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores) e Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento) e Jamieson Greer, chefe do USTR, ocorre com o relógio correndo: as sobretaxas anunciadas pelos Estados Unidos têm data prevista de vigência em 15 de julho. O governo americano aplicou duas medidas distintas sobre produtos brasileiros — uma sobretaxa de 25% no âmbito da seção 301, dirigida exclusivamente ao Brasil, e uma tarifa de 12,5% que incide sobre o Brasil e outros cerca de 59 países sob a justificativa de combate ao trabalho forçado — e a diferença na origem technical torna o caminho para um acordo desigual.
Do lado brasileiro, técnicos e auxiliares consideram mais factível reverter a sobretaxa de 25% justamente por sua natureza bilateral. A tarifa de 12,5% apresenta dificuldades adicionais: trata-se de uma ação multilateral que envolve dezenas de parceiros, reduzindo o espaço de manobra dos EUA para concessões específicas ao Brasil. Além disso, há limites políticos internos claros: qualquer proposta que envolva mudanças estruturais em serviços de pagamento, no caso o Pix, é praticamente inviável pelo seu enorme impacto doméstico. Matéria regulatória sobre grandes empresas de tecnologia esbarra no Judiciário, não sendo terreno direto para o Executivo.
No terreno das concessões práticas, o Brasil poderia oferecer a redução da tarifa sobre o etanol — atualmente em 18% — retomando, parcialmente, a política que vigorou até 2017. Mas essa opção colide com a estratégia do governo de estímulo à indústria nacional de biocombustíveis. Outros avanços técnicos, como a redução do prazo médio de concessão de patentes, já são realidade e não parecem constituir moeda de troca de maior valor. Por fim, qualquer tentativa de compromisso abrangente com uma lista de produtos americanos enfrenta restrições no âmbito do Mercosul, que veda acordos bilaterais que privilegiem terceiros.
Politicamente, o caso expõe uma tensão prática entre a preservação da relação pessoal entre os presidentes e a realidade dos interesses comerciais. Auxiliares do Planalto afirmam que a interlocução entre Lula e Trump permanece, mas a imposição de sobretaxas cria fricções concretas que não se resolvem apenas com boa vontade. Com o prazo apertado e o grupo de trabalho que formalmente venceu seu prazo, cabe agora aos negociadores transformar boa relação em alternativas técnicas e medidas que minimizem custos para exportadores brasileiros — tarefa complicada pela combinação de limitações institucionais, calendário internacional e sensibilidade doméstica.