A recuperação do S&P 500 em 2026 tem rosto — e setor — definidos: a inteligência artificial. Entre março e junho, as empresas do índice associadas à IA registraram valorização na casa de 45%, enquanto o S&P 500 excluindo esses papéis ficou praticamente estagnado. O resultado foi uma alta nas cotações que levou o índice a máximas históricas, mas também deixou evidente que o desempenho está excessivamente concentrado em um punhado de empresas.
Para especialistas consultados na programação do mercado, essa concentração altera a natureza do principal indicador acionário dos Estados Unidos. O apresentador Bernardo Pascowitch resume a sensação do mercado ao dizer que o S&P 500 perdeu parte da sua diversidade setorial e virou, na prática, um índice dominado por nomes ligados à IA. A dependência de um tema ainda novo e de alto investimento chama atenção para riscos de correção mais brusca se as expectativas de lucro ou adoção tecnológica atrasarem.
Marilia Fontes, da Nord Investimentos, ressalta que a diferença em relação à bolha 'pontocom' é material: hoje as gigantes de tecnologia acumulam caixa, receitas e lucros, e não a mesma combinação de prejuízo e alavancagem daquele período. Ainda assim, elas enfrentam agora uma fase de gastos massivos — data centers, chips e infraestrutura — necessários para sustentar o avanço da IA. Esses desembolsos elevam o nível de incerteza sobre rentabilidade futura e performance acionária.
A concentração tem efeitos práticos: ETFs e carteiras indexadas podem ficar expostas de forma desproporcional ao desempenho de poucos papéis e a mudanças regulatórias ou tecnológicas. A entrada rápida de mega-IPOs na Nasdaq, como a da SpaceX, reforça esse movimento e pode alterar a composição de índices num intervalo muito curto, impactando gestores e investidores passivos. O diagnóstico é claro: a ascensão da IA pode representar uma alavanca estrutural de produtividade, mas também acende alerta para maior volatilidade e reavaliação do preço do risco no mercado global.