O prospecto de registro S-1 da SpaceX — um documento extenso que detalha finanças, riscos e modelo de negócio — revela contradições que investidores e analistas precisarão digerir antes do esperado IPO. Em mais de 270 páginas, a empresa mistura ambição espacial, projetos de inteligência artificial e até planos para mídias sociais, tudo sob o mesmo guarda-chuva corporativo.
A governança, no centro das interrogações, mostra Elon Musk com controle esmagador dos votos: cerca de 85% do poder decisório, ações com direito a voto múltiplo e autoridade para eleger ou destituir diretores. O conselho concedeu a Musk um prêmio de até 1 bilhão de ações restritas condicionado a metas que incluem um valor de mercado de US$ 7,5 trilhões e a criação de uma colônia humana de um milhão de habitantes em Marte — termo que aparece 63 vezes no documento. Esse arranjo limita a fiscalização acionária e aumenta o risco político-corporativo do lançamento.
Nos números, o prospecto não poupa: prejuízo próximo a US$ 5 bilhões no último ano sobre receita de US$ 18,7 bilhões, com perdas adicionais de mais de US$ 4,3 bilhões nos três primeiros meses do ano. Gastos com partes relacionadas também chamam atenção — quase US$ 700 milhões em baterias Megapack e US$ 131 milhões em Cybertrucks — e a divisão de IA revela perda de US$ 6,4 bilhões ante receita de US$ 3,2 bilhões, com capex de US$ 12,7 bilhões, mais de três vezes o investimento da unidade de foguetes. É um perfil de alta queima de caixa e grande intensidade de investimento.
Há ainda metas tecnológicas que soam prematuras, como a implantação de centros de dados com IA em órbita já em 2028 — objetivo que a própria empresa qualifica como muito ambicioso. Para o mercado, o pacote combina potencial disruptivo com riscos claros: governança concentrada, compras entre afiliadas e investimentos escalados tornam a equação de valor e risco mais complexa. O IPO pode abrir liquidez, mas também cristaliza decisões estratégicas que transferem parcela significativa do risco ao investidor público.