A promessa de Donald Trump de impor tarifas de 100% sobre produtos de países europeus que adotem impostos sobre serviços digitais reenviou o tema ao centro do debate, mas esbarra em limitações jurídicas definidas pela Suprema Corte em fevereiro. O tribunal considerou que o presidente não dispõe, sem autorização clara do Congresso, da mesma margem para impor medidas tarifárias amplas — um revés capaz de transformar uma ameaça em instrumento de retórica política.
Desde a decisão, a Casa Branca recorreu a alternativas mais complexas: uma tarifa uniforme de 10%, criada como expediente temporário e com prazo de validade, e o lançamento de investigações com base na Seção 301 do Ato Comercial dos EUA. Essas investigações podem resultar em taxas, mas costumam ser processos longos e, historicamente, foram usadas sobretudo como moeda de troca em negociações comerciais, não como imposição imediata e radical.
O pano de fundo é simples: muitos impostos sobre serviços digitais miram receitas de gigantes de tecnologia norte-americanas. Isso justifica, em parte, a linguagem dura do governo norte-americano, mas também explica a reação cautelosa dos mercados e diplomatas. Tarifas elevadas e abruptas teriam custo econômico real — para empresas, cadeias globais de fornecimento e consumidores — e risco de escalada nas relações transatlânticas.
Politicamente, a ameaça funciona como sinal para aliados e para a base eleitoral, mas enfrenta um nó institucional. A Suprema Corte expôs a necessidade de autorização legislativa clara para medidas desse porte, reduzindo a eficácia de soluções unilaterais e empurrando a disputa para mesas de negociação, investigações e, possivelmente, para o terreno da diplomacia econômica.