A proposta dos Estados Unidos de impor uma sobretaxa de 25% sobre parte das importações brasileiras, que ainda passará por consulta pública e pode vigorar a partir de 15 de julho, não tem alcance homogêneo. Levantamento da consultoria Íntegra Associados mostra que, apesar do choque aparente, apenas 31% das exportações brasileiras ao mercado americano — cerca de US$ 11,7 bilhões — seriam efetivamente atingidas.

O estudo explica a discrepância pela lista de exclusões: cerca de 1,7 mil itens ficaram fora da investigação americana e muitos produtos já estavam sujeitos a tarifas anteriores. Além disso, grandes itens da pauta brasileira para os EUA — como petróleo, café, carne bovina, celulose e suco de laranja — não foram incluídos, reduzindo o alcance agregado da medida.

Na prática, o efeito se concentra na indústria de transformação: 94% do valor exportado sob risco pertence a bens manufaturados. Segmentos como máquinas e equipamentos, produtos de madeira manufaturada, armamentos, motores e químicos aparecem entre os mais expostos. A Íntegra ressalta que 54% dos produtos afetados são de média-alta ou alta tecnologia, o que eleva o potencial de impacto sobre cadeias com maior valor agregado.

Do ponto de vista macroeconômico, a consultoria avalia que o choque tende a ser limitado — os EUA responderam por 10,8% das exportações brasileiras em 2025 e o Brasil tem grau de abertura comercial relativamente baixo. Ainda assim, a concentração setorial e regional do impacto cria vítimas claras: empresas com receitas fortemente atreladas ao mercado americano podem ver margens e fluxo de caixa pressionados, elevando risco financeiro e necessidade de ajustes estratégicos.

A distribuição geográfica amplia o desafio político e econômico. Em valores absolutos, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul concentram o maior volume em jogo; quando se mede dependência relativa, Santa Catarina, Paraíba, Alagoas e São Paulo surgem como as mais vulneráveis. O quadro requer resposta focalizada: medidas de apoio a empresas afetadas, diversificação de mercados e revisão de incentivos industriais serão necessárias para mitigar perdas e limitar efeitos em empregos e cadeia produtiva.