A recomendação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) por tarifas de 25% sobre diversos produtos importados reacendeu temores de um novo capítulo na guerra comercial global e acende alerta para o governo brasileiro. A proposta ainda precisa passar por etapas políticas e regulatórias, e o presidente dos EUA tem até 15 de julho para decidir sobre a definição e a aplicação das medidas. Em razão desse calendário, investidores acompanham com atenção, mas a reação do mercado tem sido mais contida que a observada nas primeiras novidades do pacote tarifário anterior.

Um estudo da FIA Business School dimensiona os efeitos diretos: até R$ 38 bilhões a menos no consumo e impacto de US$ 9,5 bilhões nas exportações industriais, com efeito agregado estimado de redução de até 0,6 ponto percentual no crescimento do PIB. O diagnóstico é relevante porque a sustentação da atividade econômica brasileira ainda depende fortemente do agronegócio e das vendas externas. A imposição de tarifas aos produtos brasileiros tenderia a agravar um ciclo de crescimento já frágil, com reflexos sobre emprego e demanda interna, segundo especialistas consultados.

No mercado, a reação mistura ceticismo e realismo. Parte dos investidores relativizou o anúncio diante de eventuais recuos e flexibilizações — movimento que marcou o primeiro grande pacote anunciado por Trump em 2025 —, mas a repetição desse jogo de sinais corrói credibilidade. Ao mesmo tempo, a desvalorização do dólar e fluxos para outras praças têm levado parte do capital a buscar oportunidades fora dos EUA, inclusive na bolsa brasileira; entretanto, analistas destacam que isso não elimina a necessidade de diversificação com exposição ao dólar como hedge.

Além do custo econômico imediato, a proposta amplia desgaste político e complica a agenda de longo prazo sobre comércio exterior. Para reduzir vulnerabilidades, o Brasil precisa acelerar acordos e fortalecer alianças comerciais — do avanço Mercosul-União Europeia ao fortalecimento do BRICS — e proteger cadeias produtivas sensíveis. No curto prazo, a indefinição até meados de julho impõe vigilância ao governo e ao mercado: a decisão final dos EUA determinará se o choque será retórico ou uma pressão concreta sobre preços, empregos e contas externas.