Os dados oficiais do MDIC até maio de 2026 confirmam uma recomposição rápida do mapa de compradores dos móveis produzidos no Rio Grande do Sul: a América Latina passou a responder por 82,5% das exportações do estado no período, enquanto os Estados Unidos, que eram o principal destino em 2024, encolheram para 6,8% e caíram à sexta posição. O movimento acelera uma tendência iniciada após o aumento de tarifas anunciado por Washington em agosto de 2025, que reduziu a competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte-americano.

O setor gaúcho rapidamente intensificou atuação em países vizinhos — com Uruguai, Peru, Chile, México e Argentina se destacando como compradores. O Uruguai, por exemplo, foi o maior importador entre janeiro e maio, com US$ 17 milhões em móveis vindos do RS. Para fabricantes e distribuidores, a proximidade geográfica, menores custos logísticos e a expectativa de ampliar acordos comerciais tornaram a América Latina alternativa mais atraente e viável no curto prazo.

Associações e sindicatos do setor reforçam o impacto prático da mudança: a indústria moveleira brasileira reúne mais de 20 mil empresas e emprega cerca de 250 mil trabalhadores, segundo a Abimóvel, com o Rio Grande do Sul como principal polo. O diretor internacional do Sindmóveis de Bento Gonçalves avaliou que o 'tarifaço' acabou precipitando uma realocação que dificilmente ocorreria de forma espontânea, mostrando que medidas tarifárias externas têm efeito direto sobre cadeias produtivas e estratégias comerciais.

A nova configuração traz implicações econômicas e políticas. No plano empresarial, exige adaptação de produto e logística — fabricantes já relatam ajustes nas dimensões e no mix para atender perfis de consumo regionais — e pode comprimir margens se os produtores não conseguirem repassar custos. Do ponto de vista institucional, o deslocamento amplia a dependência de mercados vizinhos e pressiona por maior coordenação comercial do governo para preservar acesso e competitividade, sem que haja, até aqui, sinais públicos de iniciativa negociadora específica para o setor.

A curto prazo, a reorientação para a América Latina funciona como resposta defensiva e cria oportunidades comerciais. No médio prazo, porém, a concentração regional altera o risco mercado e testa a capacidade das empresas e das políticas públicas de transformar um choque tarifário em estratégia de diversificação sustentável. A Movelsul, em Bento Gonçalves, aparece como palco dessa adaptação — e será um termômetro da demanda regional e da capacidade do setor de converter perda de participação americana em crescimento consistente em mercados próximos.