A virada decisiva na política comercial dos Estados Unidos nos últimos anos substituiu a previsibilidade das regras multilaterais por uma lógica de poder de mercado, pressão bilateral e uso explícito de tarifas como instrumento de negociação. Normas como o International Emergency Economic Powers Act (IEEPA) e dispositivos do Trade Act of 1974, em especial a Seção 301, foram reaplicados para justificar medidas que visam desde proteção industrial até questões como alegações de trabalho forçado.

O resultado é um sistema onde a OMC e princípios como tratamento nacional e nação mais favorecida continuam existindo, mas convivem com decisões unilaterais que aumentam a incerteza para exportadores. Na prática, empresas que querem acessar o maior mercado consumidor do mundo passaram a enfrentar custos de entrada superiores, compressão de margens e maior complexidade regulatória — elementos que afetam competitividade e planejamento de longo prazo.

O Brasil entrou cedo nessa mira. Um relatório recente baseado na Seção 301 abriu caminho para aplicação de tarifas adicionais que podem atingir até 25% sobre parcela relevante das exportações brasileiras, com exceções setoriais apontadas. Em sequência, outra investigação 301 sobre importações vinculadas a trabalho forçado acabou impondo tarifas entre 10% e 12,5% a cerca de 60 economias, entre elas o Brasil. Essas decisões não se limitam a trocar preços: redesenham cadeias, realocam riscos e impõem custos que incidem sobre produtores e consumidores.

Politicamente, a ofensiva tarifária americana complica a agenda de Brasília. O governo passa a ter de defender interesses setoriais no curto prazo, sem dispôr de muita margem diante de um parceiro que mistura chantagem comercial e regras seletivas. A alternativa envolve custosas adaptações — diversificação de mercados, elevação de valor agregado das exportações e maior participação em acordos regionais — medidas que exigem estratégia integrada, coordenação e clara avaliação de custos fiscais e administrativos.

Mais do que episódios isolados, a escalada tarifária revela uma nova ordem híbrida: regras multilaterais fragilizadas, coexistindo com instrumentos unilaterais e discricionários. Para o Brasil, o desafio é duplo: mitigar impactos imediatos sobre exportadores e preparar uma resposta de estado que preserve abertura comercial e competitividade, sem perder de vista a necessidade de políticas públicas eficientes e de responsabilidade fiscal.