O Ministério da Fazenda avaliou, no último boletim macrofiscal, que o impacto econômico do chamado 'tarifaço' dos Estados Unidos tende a ser limitado. A avaliação do governo se apoia em dados da Secretaria de Política Econômica (SPE) que mostram resiliência das exportações brasileiras após as medidas adotadas pelos americanos no ano anterior e numa recuperação gradual desde novembro. Apesar disso, a investigação conduzida pelo USTR — cuja conclusão e relatório final estavam previstos para divulgação na data mais recente do processo — mantém setores produtivos em alerta, diante da possibilidade de aplicação de uma tarifa de até 25% sobre produtos brasileiros.
A SPE lembra que o mercado americano respondeu por cerca de 11% das exportações brasileiras no ano passado, o que representa menos de 2% do PIB, e que parte das perdas foi mitigada pelo redirecionamento de vendas para outros mercados. O relatório também destaca uma lista de exceções mais ampla do que a divulgada inicialmente e cita medidas de apoio domésticas, como a MP do Brasil Soberano, como fatores de contenção. Esses elementos justificam a avaliação oficial de efeito agregado limitado, mas não eliminam a preocupação setorial sobre impactos pontuais e concentração de riscos em determinados segmentos exportadores.
Analistas e representantes do setor produtivo ouvidos na cobertura afirmam que a avaliação de menor impacto precisa ser interpretada com cautela: uma tarifa de 25% teria efeito direto sobre margens e cadeias produtivas, e pode agravar custos para empresas que dependem de insumos importados. Há ainda um problema estrutural apontado pela própria iniciativa privada: a redução da presença brasileira em Washington, em especial das defesas setoriais, fragiliza a interlocução e aumenta a vulnerabilidade a medidas externas. Nesse sentido, a situação pode ampliar desgaste político e pressão sobre a estratégia do governo, exigindo respostas rápidas e calibradas.
A lei de reciprocidade comercial, recém-aprovada, surge como instrumento no arsenal de resposta, mas especialistas alertam para seus riscos se usada sem cuidado — inclusive para empresas instaladas no Brasil que dependem de importações, investimentos e acordos de propriedade intelectual. O quadro reforça a necessidade de manter canais diplomáticos e comerciais abertos, detalhar cenários alternativos e esclarecer critérios de exceção e compensação. Em suma: a narrativa oficial de impacto limitado não elimina custos políticos e econômicos potenciais; o desafio agora é transformar avaliação em estratégia prática de defesa de interesses, com transparência e presença ativa em Washington.