O governo brasileiro reconhece a existência do chamado tarifaço imposto pelos Estados Unidos, mas o trata como um problema administrável, segundo avaliação de operadores do setor privado. Esse enquadramento — embasado na leitura de que os EUA respondem por cerca de 10% das exportações brasileiras e que quase 60% dessa pauta já está isenta — reduz o senso de urgência na diplomacia comercial e condiciona a estratégia oficial.

Para Thiago de Aragão, CEO da Arko Internacional, a consequência prática dessa postura é a dificuldade de obter avanços em negociações multilaterais. Do lado americano, qualquer nova rodada exigiria concessões brasileiras significativas em troca de uma redução estimada de cerca de 10 pontos percentuais nas tarifas. Nesse cenário, a alternativa apontada por empresários e analistas é tratar pedidos de isenção individualmente, com empresas construindo casos específicos para cada produto e disputa.

A opção por negociações caso a caso expõe exportadores a maior custo operacional e jurídico, e limita a eficácia da política externa comercial. Além disso, a estratégia oficial que minimiza o impacto real — citando que, na prática, apenas cerca de 4% da pauta estaria tarifada — pode esconder riscos políticos e econômicos: quando a atenção americana retornar ao Brasil, decisões concretas poderão surgir e não necessariamente em benefício do exportador brasileiro.

Do ponto de vista político e econômico, a atitude do governo abre dois desafios: perder capacidade de pressão conjunta com o setor privado e transferir custo da disputa para empresas que terão de arcar com narrativas e recursos para pleitear isenções. A avaliação dos especialistas é clara: sem uma resposta coordenada e mais ativa, as negociações tendem a se arrastar e o problema a se agravar antes de ser resolvido.