A nova pressão sobre a inflação vem do prato do brasileiro. Além do choque nos combustíveis associado ao conflito entre Estados Unidos e Irã, o aumento nos preços de fertilizantes e a possibilidade de um El Niño forte em 2026 colocam em risco a trajetória de queda do IPCA. Em representação direta ao bolso, alimentação e bebidas somam 21,3% do IPCA e atingem 24,3% no INPC, índice que reflete o custo de vida das famílias de menor renda.
Relatórios de mercado, como o da Warren Investimentos, e economistas consultados indicam que, num cenário extremo, fatores climáticos e insumos podem acrescentar até dois pontos percentuais à alta do IPCA no biênio. Parte do impacto já é mensurável: itens com alta sensibilidade ao preço do petróleo e dos fertilizantes — carnes; produtos industrializados à base de carne e pescado; aves e ovos; leite e derivados; panificados; óleos e gorduras — transmitem choque rapidamente aos preços. Outros bens, como cereais e alimentação fora de casa, tendem a repercutir em meses seguintes.
Do lado do mercado, operadores do agronegócio dizem estar travando compras em patamares mais altos, sinalizando repasses. Gustavo Cruz, da RB Investimentos, relata esforço de produtores para fixar custos, o que reduz margem e antecipa repasse aos consumidores. Para a Warren, o avanço dos fertilizantes se concentra mais em 2026, enquanto a transmissão para grãos pode ampliar o efeito sobre preços em 2027. A estrategista Andréa Angelo estima contribuição relevante desse grupo sensível ao Brent — cerca de 1,7 ponto percentual acumulado até 2027.
Politicamente e economicamente, o quadro complica a tarefa do Banco Central de levar o IPCA à meta de 3% e acende alerta sobre o impacto distributivo: alta de alimentos pesa mais sobre famílias de menor renda e pressiona o INPC. No plano fiscal, aumento de subsídios ou programas de emergência elevaria o custo para o governo. A combinação de choques externos e risco climático exige monitoramento próximo da safra, coordenação de políticas agrícolas e medidas direcionadas à proteção da renda dos mais vulneráveis — soluções que custam politicamente e no orçamento, e que testam a capacidade de resposta da administração pública.