Na última semana de julho, o superpetroleiro Kiku — um VLCC de mais de 1.000 pés que atracou em Mesaieed no dia 25 de julho — apagou seu transponder AIS enquanto navegava próximo à costa de Dubai e reapareceu do outro lado do Estreito de Ormuz no dia 1º de agosto. A manobra é parte de uma nova rotina adotada por armadores e produtores do Golfo: viagens noturnas “no escuro”, com embarcações desligando radares públicos e contando com escolta militar, em especial da Marinha dos EUA, para reduzir o risco de ataques de drones e mísseis.
Segundo dados do Departamento de Energia dos EUA, o tráfego pelo estreito tem ficado em média entre 8 milhões e 9 milhões de barris por dia — cerca do dobro do que mostram rastreadores que dependem apenas do AIS. A prática inclui transferências navio a navio no Golfo de Omã, onde o petróleo é descarregado para navios clientes. Isso preserva o fluxo para mercados como China, Coreia do Sul e Índia, mas desloca o ónus do risco: o custo do seguro e a segurança física deixam de ser problema exclusivo dos armadores e passam a impactar governos e produtores.
A tática alivia a pressão imediata sobre a oferta, mas é precária. O Estreito de Ormuz tem apenas 23 milhas de largura e radares ainda detectam navios com transponder desligado; ataques continuaram — inclusive a dois petroleiros dos Emirados recentemente — e as reservas estratégicas americanas estão em níveis que não se viam desde os anos 1980. Especialistas e mercados lembram que a dependência de estoques chineses também tem prazo: não é uma barreira permanente contra picos de preço.
Do ponto de vista econômico e político, a solução improvisada aponta para um custo difuso. Além do aumento do prêmio de risco e do frete, há impacto sobre inflação e sentimento dos investidores, que mostram menor tolerância a preços elevados de energia. E, politicamente, a transferência de responsabilidade para os EUA e para os produtores do Golfo aprofunda o envolvimento militar e diplomático numa crise sem solução negociada clara — uma solução que o mercado e os consumidores esperam, mas ainda não aparece.