O rendimento do Treasury americano de referência a 10 anos superou 5% nesta segunda-feira, atingindo o nível mais alto desde outubro de 2023. A quebra desse limiar psicológico tem efeito imediato sobre custo de financiamento e avisa investidores: aumentou a remuneração exigida pelos ativos considerados mais seguros, com reflexos potenciais em crédito, consumo e nas contas públicas dos Estados Unidos.

Em entrevista ao CNN Money, o head de renda fixa da Suno Research, Guilherme Almeidan, dividiu o movimento em fatores conjunturais e estruturais. No curto prazo, citou o choque geopolítico que empurra o preço do petróleo acima de US$ 100 por barril e a proximidade da decisão do FOMC — além de uma comunicação do banco central que, segundo ele, tem soado mais dura no discurso do que nas decisões e votos, o que aumenta a percepção de risco e pressiona as taxas.

No plano estrutural, Almeidan apontou números que pesam sobre a confiança do mercado: déficits próximos a US$ 2 trilhões em exercícios recentes, dívida pública superior a US$ 40 trilhões e gastos com juros que já somam cerca de US$ 1 trilhão no ano. Essa dinâmica faz com que os investidores exijam remuneração maior pelos títulos e reacende dúvidas sobre o papel dos Treasuries como ativo livre de risco, tese que vem sendo contestada desde 2020.

Para países emergentes, a consequência é direta: o prêmio exigido sobe, o fluxo de capital se torna mais volátil e períodos eleitorais — como o brasileiro — adicionam camada extra de incerteza que pode afastar investidores. No mercado imobiliário dos EUA, a alta nas taxas longas já pressiona o custo do financiamento habitacional, reduzindo demanda e amplificando efeitos sobre renda e inadimplência. Em resumo: a escalada dos juros americanos complica a agenda fiscal mundial e acende alerta para governos que dependem de condições externas favoráveis.