A Trump Media & Technology anunciou a criação do Truth PSI, um serviço pago que promete entregar publicações da Truth Social em milissegundos a clientes selecionados — entre eles corretoras de Wall Street — para que negociem com antecedência em relação ao restante do público. A empresa diz que o produto dará prioridade às contas mais populares; o presidente dos EUA é o principal usuário da rede.

A proposta acende um alerta ético: o autor mais influente da plataforma é justamente o presidente, que também é o maior acionista da controladora com capital aberto. Especialistas em regras sobre conflitos de interesse classificam a operação como exploração de uma posição pública para obter benefício privado. Embora a legislação que barra lucros diretos por autoridades não se aplique ao presidente, práticas históricas de blindagem patrimonial foram ignoradas por Trump.

O potencial efeito no mercado não é teórico. Postagens presidenciais recentes sobre o Irã, tarifas e ações de imigração já provocaram volatilidade porque alteram expectativas sobre preços do petróleo, inflação e decisões do Federal Reserve. A Trump Media, que perdeu cerca de 70% do valor de mercado desde a posse do presidente — eliminando aproximadamente US$ 6 bilhões do patrimônio dos acionistas —, afirma que o Truth PSI deverá virar fonte de receita recorrente e já teria conquistado clientes antes do lançamento.

Nos últimos meses a empresa ampliou investimentos em áreas como criptomoedas e serviços financeiros e trocou a liderança executiva, trazendo um novo diretor para tentar monetizar ativos. A controladora não detalhou preços nem deixou claro se publicações do presidente estarão explicitamente incluídas na oferta; a empresa também não respondeu a perguntas sobre a eventual regra que separaria atividade pública de ganho privado.

Do ponto de vista político e econômico, o produto agrava dois problemas simultâneos: a possibilidade de ganhos privados ligados a atos ou declarações de governo e a maior sensibilidade dos mercados a ruídos presidenciais. O resultado pode ser aumento da pressão sobre reguladores, maior escrutínio de investidores e desgaste político para a administração, que terá de explicar onde termina a comunicação oficial e começa a mercantilização de informação.