O esforço concentrado da indústria cripto para transformar apoio político em regras claras sofreu um revés nesta semana: senadores republicanos não conseguiram avançar na votação procedural do Clarity Act, projeto tido como centro da agenda legislativa pró-mercado. A derrota chega em um momento em que o próprio presidente, que tem adotado tom poupança e propositivo em relação ao setor, reúne interesses financeiros pessoais consideráveis no universo cripto.

A falha para reunir os 60 votos necessários veio em meio a acusações de que o texto não resolve pontos éticos sensíveis. Parlamentares democratas questionaram se as salvaguardas impedem adequadamente que autoridades com ligações ao setor negociem ativos digitais — crítica reforçada pela revelação de que o império cripto ligado a Trump já soma mais de US$ 1 bilhão. Líderes republicanos argumentaram que propostas bipartidárias foram alteradas na reta final, enquanto negociadores democratas disseram que houve pressa e falta de boa-fé.

O mercado reagiu imediatamente: o bitcoin caiu cerca de 4%, sendo cotado em torno de US$ 75,700 no dia, e ações e plataformas do setor registraram perdas, com quedas reportadas de aproximadamente 10% na Coinbase e 11% na Circle. Analistas e executivos do setor demonstraram frustração, mas também ressaltaram a dimensão da indústria — avaliada em trilhões — e a continuidade de projetos de integração com bancos e gestores tradicionais.

Do ponto de vista político e institucional, a cena evidencia um problema claro: quando o chefe do Executivo mantém interesses financeiros substanciais em um setor, fica mais difícil construir uma coalizão legislativa confortável que inclua regras éticas robustas. O resultado é um quadro de prolongada incerteza regulatória, maior volatilidade de mercado e pressão sobre os republicanos para escolherem entre a agenda de proximidade com o presidente e a necessidade de negociar cláusulas que convençam a oposição. Para a indústria, a lição é que apoio presidencial sem solução ética e consenso bipartidário não basta para encerrar o limbo regulatório.