O presidente Donald Trump renovou a tentativa de destituir Lisa Cook, diretora do Federal Reserve, ao enviar uma carta esta semana informando que estava “considerando” removê‑la e exigindo que ela se manifeste sobre alegações de fraude hipotecária no prazo de três semanas. A ofensiva repete uma iniciativa anterior barrada pela Suprema Corte dos EUA em junho e traz novamente ao centro o conflito entre Executivo e autonomia do banco central. O advogado de Cook classificou as acusações como infundadas e disse que irá contestar o novo movimento, enquanto nem o Fed nem a Casa Branca comentaram formalmente.
A nova investida ocorre após a Suprema Corte, em decisão apertada de 5 a 4, ter impedido provisoriamente a demissão de Cook — uma salvaguarda que o tribunal articulou em função de garantias processuais, não de um julgamento definitivo sobre os fatos. A carta, assinada pelo vice‑chefe de gabinete Dan Scavino e divulgada pela ABC, acusa a diretora de condutas que, segundo a peça, poderiam configurar crimes com penas severas, e alega negligência que afetaria sua confiabilidade no cargo. O caso foi devolvido às instâncias inferiores para exame factual, de modo que a controvérsia formal ainda permanece em aberto.
O episódio tem implicações claras para a credibilidade institucional e para o ambiente econômico. Desde a criação do Fed, em 1913, nenhum presidente havia tentado destituir um membro do conselho com argumentos semelhantes; a repetição dessa ação, mesmo após derrota jurídica, aumenta o risco de politização da autoridade monetária. Mesmo sem prognósticos definitivos, movimentos dessa natureza tendem a elevar incertezas sobre independência de política monetária, algo que mercados e gestores de risco monitoram de perto. No plano político, a insistência do presidente em avançar contra figuras protegidas por garantias legais pode ampliar desgaste e tensionar relações com o Judiciário e com aliados que valorizam regras institucionais.
Por ora, a disputa deverá seguir nos tribunais e na praça pública. A defesa de Cook avisou que irá preservar seu cargo e o papel histórico que ocupa no Fed; a Suprema Corte já deixou claro que a questão processual é central, mesmo sem resolver os méritos das acusações. A continuidade do confronto mantém em xeque não apenas a situação pessoal da diretora, mas também o princípio da autonomia técnica do banco central — um ativo caro para a estabilidade macroeconômica que qualquer governo sério precisa respeitar.