A Uber anunciou nesta quarta-feira a demissão de cerca de 3.300 funcionários — cerca de 10% do seu quadro — no maior corte desde o início da pandemia. A empresa justifica a medida como parte de uma reestruturação para reduzir a complexidade hierárquica criada durante anos de expansão rápida. O CEO, Dara Khosrowshahi, afirmou que a iniciativa visa clareza de responsabilidades e decisões mais rápidas, embora tenha evitado atribuir os cortes ao avanço da inteligência artificial — tema que, no setor, tem sido usada para explicar demissões em massa.
O redesenho organizacional prevê achatamento das camadas de gestão: redução de 20% no número de funcionários que ocupam sete ou mais níveis hierárquicos abaixo do presidente-executivo e corte pela metade das equipes com apenas um ou dois subordinados diretos. A companhia também vai combinar equipes, concentrar pessoal em centros estratégicos e restringir o trabalho totalmente remoto a cerca de 1% do quadro, mantendo a política de três dias presenciais no escritório.
O ajuste ocorre num momento de pressão competitiva e financeira. As ações da Uber tiveram desempenho inferior ao S&P 500 e à rival Lyft neste ano, com queda próxima de 8%, e a empresa enfrenta concorrência crescente no delivery e nos serviços de mobilidade. Paralelamente, a tensão com operadores de veículos autônomos como a Waymo — que usa o app da Uber em cidades selecionadas e expande atuação própria — e os investimentos de rivais em robotáxis reforçam a necessidade de ganhar escala e proteger o papel da Uber como intermediária.
Na prática, a redução de custos busca liberar recursos para uma aposta de longo prazo: a empresa planeja aportar mais de US$10 bilhões em robotáxis e apoiar fornecedores de tecnologia autônoma. A estratégia não é isenta de riscos: além do custo imediato do ajuste, há incertezas sobre retorno desse investimento e sobre se a reorganização preservará capacidade de execução. Para além do efeito direto sobre empregados, o movimento sinaliza que a Uber tenta se reposicionar num mercado que aposta em modelos menos intensivos em mão de obra humana — um desafio que pode afetar receita, margem e sua posição diante de parceiros e reguladores.