A Comissão Europeia alertou em reunião a portas fechadas com embaixadores que a continuidade do conflito envolvendo o Irã pode desencadear um choque prolongado no abastecimento global de energia. Diplomatas ouvidos por correspondentes internacionais relataram que o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz — rota para cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo — já pressiona mercados e eleva a probabilidade de consequências reais para consumidores e empresas.
No levantamento interno apresentado aos Estados‑membros, a Comissão traçou dois cenários. No melhor deles, um cessar‑fogo e a suspensão do bloqueio permitiriam a recuperação dos fluxos em alguns meses e a queda de preços ao longo do verão. No cenário adverso, porém, a interrupção persistente produziria picos extremos de preços, danos em cadeia nas cadeias produtivas e a chamada 'destruição de demanda' — ou seja, cortes forçados no uso de combustíveis. O documento também aponta que o mercado global de GNL pode permanecer apertado até 2030, devido a danos à infraestrutura em países-chave, entre eles o Catar.
A própria Europa, embora importe petróleo e gás de fornecedores fora do Oriente Médio — como EUA e Noruega — permanece vulnerável à espiral de preços globais. Autoridades aeroportuárias já sinalizaram a possibilidade de a primeira falta de querosene de aviação ocorrer em semanas, e a Comissão adverte para dificuldades em completar estoques de gás antes do inverno. Entre as medidas em estudo estão reduções temporárias de impostos sobre eletricidade e programas para acelerar tecnologias limpas, ações que implicariam custos fiscais e desafios de implementação para governos nacionais.
O alerta europeu acende um sinal político e econômico: diante do risco de inflação mais alta, racionamento setorial e pressão sobre a logística, Estados e empresas terão de calibrar respostas que conciliem proteção imediata de consumidores com investimentos em segurança energética. A situação expõe a consequência prática da dependência de rotas sensíveis e combustíveis fósseis e reforça a necessidade — política e administrativa — de acomodar medidas de curto prazo sem sacrificar a transição e a resiliência no médio prazo.