Desde o início de 2020 as ações de varejistas listadas na B3 sofreram um colapso que contrasta com a trajetória do mercado amplo: enquanto o Ibovespa subiu 44,2% (de cerca de 118 mil pontos para 171 mil), o ICON — índice de consumo — recuou 49,4%, e papéis individuais chegaram a perder até 99,93% do valor. Nomes como Americanas e Casas Bahia estão entre os mais afetados; Magazine Luiza e Marisa também acumulam quedas superiores a 95%.

A mudança de cenário tem explicação econômica direta. O período de Selic em 2% criou ambiente favorável ao crédito, ao consumo e à tomada de risco; a reversão, com a taxa chegando a patamares elevados, encareceu o custo da dívida e reduziu a demanda por bens duráveis. Economistas do mercado destacam que empresas altamente alavancadas sentiram de forma aguda o custo de carrego da dívida, enquanto a retração do crédito e o aumento da inadimplência apertaram margens e volume de vendas.

As consequências são visíveis na prática: em 16 de agosto, o Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas; no mesmo dia a Marabraz protocolou processo envolvendo cerca de R$ 140 milhões; já o GPA acertou um acordo com credores para tratar cerca de R$ 4,5 bilhões em obrigações. A desvalorização também levou ações ao patamar de penny stocks — Casas Bahia, por exemplo, caiu de R$ 256,57 no início de 2020 para R$ 0,43 em 21 de agosto de 2026 — e força a adoção de medidas como grupamento de ações para evitar exclusões.

O recuo do setor acende questões concretas para política econômica e regulação de mercado: fornecedores e credores enfrentam risco de calote e atraso, pequenos acionistas amargam perdas e a B3 terá de administrar ajustes regulatórios; para as empresas, o desafio é reenquadrar modelos operacionais, reduzir alavancagem e recuperar confiança. Do ponto de vista público, o episódio confirma que ciclos de juros têm efeitos distributivos fortes sobre setores alavancados e expõe a importância de supervisão, governança e transparência nas decisões que precederam a alavancagem excessiva.