O volume de vendas do varejo alcançou em março um patamar 12,5% superior ao de fevereiro de 2020, antes da crise sanitária, segundo a Pesquisa Mensal de Comércio divulgada pelo IBGE. No varejo ampliado — que inclui veículos, material de construção e atacado alimentício —, a alta é de 8,2% sobre o pré-pandemia. Os números confirmam uma recuperação acumulada, mas não apontam uniformidade entre os setores.
A composição dessa recuperação revela vencedores e perdedores. Artigos farmacêuticos operam 44,9% acima do nível pré-crise; combustíveis e lubrificantes, 14,9%; veículos, 13,6%; supermercados, 13,5%; material de construção, 9,4%. Equipamentos de informática e outros artigos pessoais também estão ligeiramente acima. Em sentido oposto, móveis e eletrodomésticos aparecem 0,1% abaixo, tecidos, vestuário e calçados estão 18% abaixo, e livros e papelaria seguem com queda de 46,5%.
O quadro expõe uma recuperação desigual que traz efeitos concretos. Segmentos ligados a consumo contínuo e saúde sustentam vendas, enquanto duráveis e cultura permanecem pressionados — cenário que pode frear investimento, reduzir demanda por crédito e afetar emprego em cadeias produtivas específicas. Para gestores e varejistas, a dispersão dos resultados exige ajustes de estoques, precificação e canais de venda.
Do ponto de vista macroeconômico, os dados complicam interpretações simplistas sobre a retomada: a média positiva não elimna riscos setoriais. Autoridades e agentes do mercado terão de conciliar sinais de crescimento no varejo com as desigualdades setoriais ao calibrar políticas de apoio, crédito e decisões sobre custos e tarifas. A recuperação existe, mas é seletiva — e isso tem impacto direto na economia real e no ritmo de recuperação do emprego.