Ana Marcela Cunha relatou que a vitória olímpica em Tóquio acabou permeada por um desgaste emocional que terminou por romper a relação com o técnico Fernando Possenti. Segundo a nadadora, uma observação feita pelo treinador logo após o pódio — direcionando o foco para a próxima meta — tirou parte da celebração pessoal e sinalizou a transição imediata da alegria para a cobrança de resultados.
O atrito se aprofundou depois. Em 2022, numa etapa da Copa do Mundo em Portugal, Ana Marcela sofreu uma lesão que a deixou sem conseguir levantar o braço; precisou de cerca de três meses usando medicação forte, hoje proibida. A atleta diz que o técnico interpretou seu quadro como falta de empenho, e o desencontro sobre diagnóstico e manejo da dor foi decisivo para o fim da parceria. Hoje, ela afirma que ambos seguiram caminhos distintos e que a distância foi necessária.
Na reconstrução, Ana Marcela encontrou prazer nas provas mais longas: ela tem cinco dos sete ouros em Mundiais na distância de 25km, categoria que considera um “sinal de amor ao esporte”. A limitação do programa olímpico — que oferta apenas 10km — convive com seu talento para provas de endurance, e a atleta diz ter recuperado a motivação ao reencontrar o prazer competitivo nas maratonas aquáticas maiores.
Além do relato técnico e físico, a nadadora também destacou que a visibilidade após o ouro a deixou mais à vontade para falar da própria sexualidade; hoje, com a esposa, sente-se mais empoderada para se posicionar. O caso evidencia um problema mais amplo: a pressão pós-olímpica, a gestão da saúde do atleta e a fragilidade das relações técnico-atleta podem transformar um triunfo em ponto de inflexão profissional e pessoal.