Nove meses e meio na estrada, 17 mil quilômetros e 17 países atravessados a bordo de bicicletas. Esse é o trajeto percorrido por Vicente Conculini, Yamandú Martínez e Miguel Silio desde que saíram de Gualeguaychú, na Argentina, em agosto do ano passado, com o objetivo de acompanhar a seleção na Copa do Mundo nos Estados Unidos. A chegada a Kansas, base dos treinos da equipe e local da estreia argentina no torneio, foi recebida com comemoração pelo trio — e com um reconhecimento inesperado: um encontro com o técnico Lionel Scaloni.
A viagem foi planejada com antecedência por Miguel, que já havia feito trajetos semelhantes para as Copas de 2018 e 2022, e amadurecida entre os três ao ponto de exigir decisões drásticas: dois deles tiveram de pedir demissão para seguir o projeto. No percurso, que passou por países da América Central e do Sul até entrar nos EUA, os ciclistas documentaram cada etapa em redes sociais, transformando a travessia num diário de bordo que mescla perrengues, encontros e a rotina do viajante a pedal.
O abraço com a comissão técnica trouxe uma recompensa simbólica pelo esforço, mas deixou em evidência um problema prático: o trio ainda não tem ingressos para a estreia em Kansas. A AFA e a comissão técnica se comprometeram a ajudar, mas os próprios viajantes reconhecem a dificuldade — e o custo: além das horas e dos sacrifícios pessoais, esta edição do Mundial é apontada como a mais cara da história, o que eleva a barreira de acesso para torcedores de renda comum.
Enquanto buscam uma solução para garantir pelo menos o primeiro jogo — o desfecho que, para eles, fecharia a viagem —, os ciclistas seguem campo adentro no acompanhamento da seleção e planejam estender a jornada até Miami caso a Argentina avance. A história, mais do que um feito de resistência física, é um retrato do fanatismo contemporâneo e das contradições de um Mundial globalizado: visceral na devoção, mas cada vez mais condicionado por custos e logística que limitam quem pode estar nos estádios.