A lembrança de Milton Neves sobre a conversa com Armando Nogueira em Roma, durante a Copa de 1990, volta a colocar na pauta uma discussão antiga e prática: até que ponto a paixão por um clube compromete o trabalho do jornalista esportivo? O relato envolve nomes do rádio, uma gravação ao vivo e reações acaloradas nos bastidores.
No episódio contado por Neves, o diretor Fernando Luiz Vieira de Mello defendia uma postura mais distante — "pátria de chuteiras é para o torcedor" — enquanto Armando reagiu de outra forma: para ele, viver a paixão é parte do ofício. A gravação levada ao ar ao vivo trouxe choque e elogios, e deixou clara a divergência entre neutralidade formal e envolvimento afetivo.
O bom jornalista esportivo vive a paixão do torcedor; sem isso, exerce outro ofício.
A tensão não é apenas histórica. Hoje, com redes sociais e cobertura em tempo real, a linha entre opinião, paixão e reportagem factual ficou ainda mais tênue. A escolha de ter time deve ser transparente: não se trata de apologia ao partidarismo, mas de reconhecer que torcer existe e pode coabitar com rigor jornalístico, desde que limites e clareza sejam preservados.
Há risco: misturar torcida e reportagem sem sinalização pode corroer confiança e abrir espaço para críticas sobre parcialidade. Por outro lado, negar qualquer emoção reduz o relato esportivo a um texto seco e distante do público. O equilíbrio passa por ética, contextualização e distinção clara entre análise e torcida declarada.
O capítulo romano reitera um ponto prático para redações: a emoção não é pecado, é realidade. O desafio contemporâneo é administrar essa realidade com procedimentos que protejam a credibilidade — identificação de opinião, padronização de comentários pessoais e controle editorial — para que a paixão não se transforme em perda de confiança.
Levei a gravação ao ar e provoquei reação, mas ganhamos respeito pelo contraditório.