Muito antes de Caio Bonfim subir ao pódio olímpico em Paris-2024 e agregar ao currículo nacional um ouro em Mundiais em 2025, Brasília já praticava a marcha atlética como projeto de base. O que parecia uma modalidade marginalmente conhecida ganhou corpo na cidade graças a treinadores e centros que apostaram na continuidade de carreira para jovens atletas.

Entre os nomes que ajudam a explicar a trajetória está Gianetti Bonfim: recordista nacional, oito vezes campeã brasileira e hoje treinadora, ela transicionou da competição para a formação após uma lesão. Ao lado de pioneiros das décadas de 1970 e 1980, como Valdemar Florêncio da Silva, e de outros expoentes regionais, Brasília criou uma linhagem competitiva que se espalhou por regiões como Gama, Ceilândia, Paranoá e Sobradinho.

Começamos sem estrutura e fomos construindo passo a passo; foi preciso paciência e trabalho diário para chegar aonde estamos.

A profissionalização teve marcos práticos. O Centro de Atletismo de Sobradinho (CASO), fundado em 1990 por João Sena, foi pensado para segurar talentos que perderiam o vínculo com o esporte ao completar a idade júnior. Esse ambiente coletivo de treinos e a altitude privilegiada de partes do DF explicam parte do rendimento em provas de resistência e ajudaram a transformar a cidade em referência nacional.

O reconhecimento, porém, não foi automático. Persistem desafios estruturais: falta de árbitros específicos, provas longas que raramente atraem cobertura televisiva e recursos limitados para ampliar visibilidade. Ainda assim, o ecossistema de Brasília produziu atletas com presença constante em Mundiais e competições continentais, além de formar nomes que inspiram as gerações seguintes.

Agora, a realização do Mundial por equipes na Esplanada dos Ministérios, no domingo (12/4), funciona como demonstração simbólica e prática dessa maturidade: a capital não apenas forma competidores como também consegue acomodar e dar palco à modalidade. Para o atletismo brasileiro, é uma oportunidade de mostrar pipeline de talentos e de ampliar o debate sobre investimento contínuo em infraestrutura e arbitragem.

Criamos o CASO para evitar que jovens desistissem ao completar 18 anos; a continuidade foi decisiva para formar atletas de alto nível.