No mesmo dia em que Portugal e Espanha se enfrentam nas oitavas da Copa do Mundo, Santos relembra um episódio que antecede a rivalidade ibérica: em 6 de julho de 1919 a Portuguesa Santista e o então Hespanha Foot Ball Club inauguraram o que viria a ser chamado de "Clássico das Colônias". O jogo pioneiro, vencido pelo Hespanha por 1 a 0, nasceu no tecido social formado por imigrantes que moldaram o futebol local.
O clube espanhol, fundado em 15 de novembro de 1914 por jornaleiros residentes no bairro do Jabaquara, adotou a grafia "Hespanha" como afirmação de identidade — sobretudo ligada à Galícia, de onde vinham a maioria dos integrantes da comunidade. Três anos mais tarde, em 20 de novembro de 1917, surgia a Associação Atlética Portuguesa, projetando a presença lusitana nas mesmas ruas e campos de areia.
Ao longo do século XX as duas agremiações se entrecruzaram com marcos do futebol paulista: estão entre os fundadores, em 1941, da Federação Paulista de Futebol, ao lado do Santos. Na trajetória esportiva, a Briosa chegou a ter Argemiro convocado para a seleção em 1938; o Jabuca orgulha-se de revelar Gylmar, um dos grandes goleiros do país.
A mudança de nome do Hespanha para Jabaquara ocorreu no contexto da Segunda Guerra Mundial, depois do decreto federal de 1942 que pressionou instituições com nomes estrangeiros a se adaptar — hoje a sede do clube fica na Caneleira. Fora de campo, episódios como a excursão da Portuguesa à África do Sul, em 1959, mostram como as decisões e os deslocamentos do clube se ligaram também a momentos políticos e sociais mais amplos.
A coincidência de datas entre o clássico santista e o duelo Portugal x Espanha na Copa devolve ao litoral paulista uma lembrança sobre a centralidade das colônias na formação do futebol local. Mais do que folclore, é um aviso de que a preservação dessas histórias depende de atenção institucional: clubes pequenos mantêm memória e identidade em um cenário esportivo cada vez mais profissionalizado.