Alfredo Di Stéfano é unanimidade entre gerações: estrela do River Plate e marco do Real Madrid, figura entre os maiores do século 20 segundo a IFFHS. Ainda assim, há uma lacuna inesperada no currículo do argentino nascido em 4 de julho de 1926: nunca disputou uma partida em Copa do Mundo. O fato se deve menos a uma questão esportiva pontual e mais a uma sequência de impasses administrativos, mudanças de nacionalidade e decisões políticas que o afastaram dos Mundiais de 1950 e 1954.

A carreira de Di Stéfano ganhou projeção já em 1947, quando explodiu no River Plate — foi artilheiro do campeonato e estreou na seleção argentina no mesmo ano, marcando seis gols nas seis partidas que disputou no Sul-Americano. O talento era claro, mas o cenário do futebol sul-americano da época estava longe de ser apenas técnico: em 1949, uma movimentação de jogadores por melhores condições e contra o regime do passe provocou uma onda de saídas do país.

Di Stéfano acabou no Millonarios, da Colômbia, onde tornou-se naturalizado colombiano. O futebol local vivia um momento tenso: clubes criaram um campeonato dissidente — a chamada 'liga pirata' — em conflito com a federação. Esse impasse institucional impediu que a Colômbia participasse das eliminatórias para as Copas de 1950 e 1954, e, na prática, fechou uma via que poderia ter levado Di Stéfano ao Mundial.

Ao mesmo tempo, decisões políticas na Argentina agravaram a situação. O governo de Juan Domingo Perón optou por não inscrever a seleção nas eliminatórias, alegando promessas não cumpridas da Fifa e uma avaliação de que a equipe, com tantos jogadores no exterior, não estaria em condições de competir. O resultado foi que, mesmo tendo defendido Argentina, atuado em amistosos pela Colômbia e mais tarde representado a Espanha em jogos oficiais, Di Stéfano foi vítima de uma conjunção de fatores fora das quatro linhas. Ironia histórica: o craque que ganhou cinco Taças dos Campeões da Europa e está entre os gigantes do século 20 jamais entrou em campo em uma partida de Copa do Mundo — não por falta de talento, mas por política, burocracia e o tempo em que viveu.