Em poucos dias, Gianni Infantino passou de figura central do futebol global a um dirigente claramente sob pressão. O projeto de criar a Fifa Forward Enterprise (FFE) — empresa destinada a vender participações minoritárias e arrecadar até 4,2 bilhões de dólares — naufragou diante da forte oposição, sobretudo da Uefa, e foi oficialmente cancelado. O recuo transformou uma iniciativa financeira ambiciosa em crise política na cúpula da Fifa.
O fracasso do plano expôs fissuras no apoio à gestão de Infantino. Apelos públicos de confederações e a renúncia de um assessor em protesto contra a proposta ampliaram o desgaste. Segundo levantamento divulgado pela própria entidade, 136 das 211 associações registraram posição contrária ao projeto da FFE, ainda que haja dissensos regionais e exceções, como declarações de apoio do Catar e de países africanos e sul-americanos.
Há três caminhos claros para a saída do presidente: renúncia voluntária, pressão do Conselho da Fifa — que pode ser convocado se 19 dos 37 membros solicitarem reunião — ou a convocação de um congresso extraordinário, que exigiria a aprovação posterior de 106 das 211 associações para forçar a renúncia. A composição do Conselho e das associações, com distribuição regional distinta (por exemplo, 9 membros da Uefa no Conselho e 55 associações europeias entre 211), torna imprevisível o resultado de qualquer movimentação.
No tabuleiro político interno, Infantino ainda tem apoios relevantes — a imprensa cita Marrocos e alguns membros da Conmebol como alinhados ao presidente — e pode tentar resistir até a eleição prevista para março, quando pode pleitear o quarto mandato. Há também menção na mídia especializada a Victor Montagliani, do Canadá, como potencial candidato de consenso fora do núcleo europeu, dado o peso da rejeição da Uefa a uma solução “europeia”. O prazo para registro de candidaturas, lembram fontes, é outro fator que condiciona movimentos estratégicos.
Do ponto de vista institucional, a debacle do FFE projeta consequências concretas: fragiliza a confiança em decisões financeiras inovadoras, complica a agenda de reformas e deixa a Fifa em posição vulnerável diante de confederações, patrocinadores e atores internacionais. Mais do que um revés de imagem, a crise revela um problema de governança que exigirá articulação e transparência se a entidade quiser recuperar estabilidade antes das decisões-chave que se avizinham.