O futebol brasileiro, historicamente fértil em mestres das cobranças — de Zico a Roberto Carlos, passando por Petkovic e Rogério Ceni — vive um momento de raridade nas bolas paradas. Um levantamento do Gato Mestre, solicitado pelo ge, mostra que o número de gols de falta na Série A nas dez primeiras rodadas tem caído de forma consistente desde 2013, sinalizando mudança de hábito e perda de um repertório técnico valorizado pelo torcedor.
No recorte analisado, a edição de 2026 aparece como a terceira com menos gols de falta: apenas cinco, todas diretas. Piores marcas recentes incluem 2021, com quatro gols, e 2022 e 2025, com três cada. Em 2013, houve 15 gols nesse mesmo recorte. Além da queda em tentos, também recuaram as tentativas: foram 123 cobranças com intenção de marcar em 2026, contra 209 em 2013 — um recuo que confirma a atenuação do movimento ofensivo nas faltas.
Alex de Souza, referência entre os cobradores nas décadas de 1990 e 2000 e hoje técnico do Athletic, atribui parte do fenômeno ao receio dos jogadores: segundo ele, a pressão das redes e o custo de errar inibem a tentativa. Em campo, o treinador diz orientar os atletas a valorizar suas qualidades e arriscar mais nas cobranças; na partida em que falou à reportagem, incentivou o meia Pedro Oliveira a finalizar em uma falta sofrida perto da área.
A redução nas cobranças com efetividade tem implicações práticas: equipes perdem uma arma tática em momentos decisivos, aumentam previsibilidade nas ações ofensivas e forçam treinadores a buscar alternativas em jogadas trabalhadas. O dado de que cinco das piores marcas nas últimas 14 edições surgiram nos últimos oito Brasileiros aponta para uma mudança estruturada, que passa por preparação física, gestão de riscos e cultura do jogo — e que só se reverte com treino e confiança.