A carreira de Harry Kane teve um início improvável: aos seis anos, no Ridgeway Rovers, ele se ofereceu para jogar no gol durante um treino. O primeiro treinador, Dave Bricknell, ficou surpreso — a maioria das crianças evitava a posição — e pensou ter encontrado um goleiro. Os pais, porém, lembraram que o menino já rendia mais na linha, e a opção pelo ataque logo prevaleceu.

Mesmo assim, a experiência com a posição não se limitou ao primeiro dia. Nos anos seguintes Kane participou de atividades específicas para goleiros enquanto desenvolvia seu futebol ofensivo. Na primeira temporada pelo Ridgeway Rovers marcou mais de 40 gols e passou a ser observado pelo Arsenal. Dispenso nas categorias de base, retorno ao clube de origem, empréstimos e dúvidas sobre seu potencial marcaram o percurso antes da consolidação no Tottenham — um caminho que Bricknell associa à força mental do atleta.

Anos depois, a aposta se confirmou. Kane virou ídolo no Tottenham, atua atualmente no Bayern de Munique e alcançou o posto de maior artilheiro da seleção inglesa. Na véspera das quartas de final da Copa do Mundo soma seis gols e corre atrás de Haaland (sete) e dos líderes Messi e Mbappé (oito). Neste sábado, às 18h (de Brasília), a seleção inglesa enfrenta a Noruega em jogo que vale vaga na semifinal e mantém viva a disputa pela Chuteira de Ouro.

A história do gol ilustra dois traços decisivos: versatilidade inicial e persistência. Mais do que um curioso episódio, a trajetória de Kane expõe a dependência ofensiva da Inglaterra: o time ainda precisa de seu faro de gol para avançar nos mata-matas, e o sucesso individual do camisa 9 tem efeitos diretos nas ambições coletivas da seleção.