Há 40 anos, o Iraque fez sua estreia em Copas do Mundo no México e carregou para o torneio uma história improvável: a da presença de técnicos e profissionais brasileiros que atuaram no país em pleno conflito. Evaristo Macedo, que acaba de completar 93 anos, foi o comandante naquele Mundial e o terceiro brasileiro a assumir a seleção — numa sequência que começou com Jorge Vieira e teve nomes como Edu Coimbra e o preparador físico Carlos Alberto Lancetta no staff.

O trabalho no Iraque disputado entre 1980 e 1988 teve obstáculos fora do habitual do futebol: por causa da guerra com o Irã, os treinos e partidas frequentemente ocorriam longe do país; havia racionamento de alimentos e restrições logísticas. Lancetta lembra que as atividades eram feitas em uma universidade de origem alemã em Bagdá e que a rotina era marcada pela tensão. Muitos jogadores chegavam à concentração abalados por perdas na família e viviam sob um medo constante.

Esse medo tinha um nome: Uday Hussein, filho de Saddam e figura que controlava o futebol iraquiano. Segundo relatos dos brasileiros, a presença de Uday instaurava receio de punições severas quando a disciplina era rompida. O pano de fundo político e a segurança extrema também tornavam estranhos os encontros com Saddam Hussein: reuniões sempre em locais diferentes, esquemas rígidos de proteção e a sensação de operar dentro de um sistema fechado.

O médico José Luis Runco — que vinha de título mundial sub‑20 em 1985 e passagem pelo Flamengo — desembarcou em Bagdá em janeiro de 1986. Em menos de uma semana foi chamado para operar o sobrinho de Saddam (filho de uma irmã do ditador), procedimento que abriu portas e permitiu a instalação de um consultório. Durante os dois anos em que ficou no país, Runco contabilizou 52 cirurgias, atendendo também parentes de jogadores e vítimas das consequências do conflito. Foi esse conjunto de serviços brasileiros, dentro de um contexto hostil, que ajudou o Iraque a se organizar para chegar ao Mundial.