Em 1938, enquanto a Seleção Brasileira ainda engatinhava em estrutura e logística, Álvaro Lopes Cançado — o Nariz — cumpriu dupla função rara para qualquer Mundial: vestiu a camisa de zagueiro e, formado em Medicina, atuou como médico da delegação. Convocado após desempenho sólido no Campeonato Sul-Americano, Nariz levou para a França não só a experiência defensiva, mas a capacidade técnica de avaliar e assistir colegas em campo.
O episódio mais eloquente dessa combinação aconteceu depois do confronto com a Tchecoslováquia, em Bordeaux, um dos jogos mais violentos da história das Copas. Sem substituições permitidas, atletas deixaram o campo lesionados e o trabalho de Nariz foi decisivo: examinou o elenco e atestou que não havia lesões incapacitantes. Mesmo assim, a comissão técnica optou por preservar titulares no jogo-desempate — decisão que abriu espaço para Nariz ser escalado como capitão e atuar em sua única partida no Mundial, vitória por 2 a 1.
A trajetória do jogador é exemplo de como o futebol brasileiro começou a profissionalizar cuidados com a saúde dos atletas. Após encerrar a carreira, motivado por um drama familiar, Nariz dedicou-se mais à medicina: fundou em 1940 o departamento médico do Botafogo — considerado o primeiro de um clube no país — e, após passagem pelos Estados Unidos, ajudou a criar a Escola de Medicina de Uberaba, precursora da atual UFTM.
Mais do que anedota curiosa, a história de Nariz ilumina um ponto estrutural: a medicina esportiva no Brasil teve origem entre quem conhecia o jogo de dentro e a técnica clínica. Em tempos de equipamentos modernos e equipes multidisciplinares, vale lembrar que a integração entre campo e ciência começou cedo e que figuras como Álvaro Lopes Cançado ajudaram a transformar práticas que hoje são padrão nas seleções e clubes.