Quando a Seleção Brasileira avançava para fases decisivas de uma Copa, a memória dos primeiros passos do time no torneio ganha relevo. João Coelho Netto, o Preguinho, é peça-chave desse começo: capitão e autor do primeiro gol do Brasil em Copas, em 1930, num Mundial marcado por dificuldades logísticas e físicas para os jogadores. A façanha veio numa derrota por 2 a 1 para a Iugoslávia, mas entrou para a história como o pontapé inicial do país no maior palco do futebol.

No Fluminense, onde era sócio antes mesmo de nascer, Preguinho construiu estatísticas expressivas. Entre 1925 e 1938, segundo levantamento do clube, atuou 174 vezes e anotou 128 gols, com 78 deles nas Laranjeiras — marca que o coloca como o maior artilheiro do estádio e o oitavo maior goleador tricolor. Sua estreia no time principal ocorreu em abril de 1925, no Torneio Início, dia em que também venceu prova de natação na Praia de Botafogo, reforçando sua condição de atleta completo.

A trajetória de Preguinho extrapola o gramado: competiu em dez modalidades, com vitórias registradas em ao menos oito delas. No basquete do Fluminense figura como segundo maior cestinha do clube, com mais de 700 pontos. Ao mesmo tempo, manteve-se fiel ao amadorismo no futebol, recusando remuneração e, depois de encerrar a carreira, declinando convites para ser comentarista — postura que refletia um vínculo emocional e um código de conduta esportiva em mudança naquele período.

Apesar do legado, sua lembrança esvai-se entre as gerações. Pesquisadores e autores que compilaram a vida do jogador destacam sua visão à frente do tempo — atenção à preparação física, à medicina esportiva e ao trabalho coletivo — e também a capacidade de reconhecer adversários. Reconstituir e divulgar episódios como o do primeiro gol em Copas não é apenas reviver uma cena histórica; é recuperar uma referência do futebol brasileiro que ajuda a entender a evolução do esporte e a memória que a torcida preserva — ou perde — ao longo das décadas.