Um hábito pessoal do meia Gustavo Scarpa ganhou a dimensão de movimento entre torcedores do Atlético-MG. Ao publicar resenhas e indicações de leitura nas redes sociais, Scarpa acabou motivando a criação da Galeitura, um clube do livro formado por torcedores que rapidamente ocupou espaço nas plataformas: mais de 500 integrantes em grupos de WhatsApp e mais de 80 mil seguidores no Instagram, segundo os organizadores.

A primeira leitura escolhida pelo grupo — A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói — saltou nas vendas e chegou ao topo do ranking da Amazon Brasil na sequência da adesão da comunidade. A iniciativa nasceu de uma publicação no X feita por Carolina Marques, estudante de Letras e atleticana, que contou ter recebido mais de 300 pedidos de entrada no grupo já no primeiro dia. O cronograma foi coletivo: três semanas, quatro capítulos por semana, e lives para debater os trechos lidos.

O efeito extrapolou o universo do clube. A repercussão chegou a veículos internacionais, como o diário argentino Olé, e atraiu a atenção de escritores e leitores que passaram a acompanhar o movimento. Scarpa, que publica indicações de livros desde 2018 e mantém um canal no YouTube, incorporou a conversa e mostrou ter influenciado atletas do próprio elenco a adotar a leitura, entre eles Cuello, Victor Hugo, Ruan Tressoldi, Igor Gomes, Léo Duarte e Tomás Pérez.

A transformação de um hábito individual em mobilização coletiva revela duas consequências práticas: engajamento de torcida além do futebol e impacto direto no mercado editorial. Movimentos como a Galeitura alteram a relação entre clube e torcedor, geram visibilidade cultural para a imagem do jogador e mostram como personalidades do esporte podem furar bolhas digitais. A experiência já inspira grupos de outras torcidas a replicarem o formato, promovendo leitura e discussão em larga escala.