O anúncio de um cessar-fogo de duas semanas, acompanhado da reabertura temporária do estreito de Ormuz, funcionou como um catalisador para uma crise interna no Irã. A trégua, negociada com mediação do Paquistão e com papel de influência da China, foi autorizada pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional (SNSC) — presidido pelo moderado Masoud Pezeshkian — e prevê negociações diretas com os Estados Unidos. A decisão representa uma guinada prática em relação à postura anterior e elevou a temperatura política nas ruas e nos corredores do poder em Teerã.

Setores linha-dura reagiram com hostilidade: faixas contra a abertura do estreito foram hasteadas em pontos centrais da capital, homens da milícia Basij marcharam até o Ministério das Relações Exteriores e veículos da imprensa conservadora qualificaramm o acordo como “presente ao inimigo”. Esses gestos expõem um dilema realista que atravessa o regime: a combinação entre capacidade de desgaste — demonstrada pelo fechamento temporário do Ormuz — e o custo crescente de uma guerra que já deixou mais de 3 mil mortos, segundo ativistas, e danificou infraestrutura crítica.

A autorização para negociações diretas com Washington, com a expectativa de que o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, lidere a delegação iraniana para Islamabad e converse com o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, marca um afastamento do tabu que vigorava sob o dirigente anterior. Para a ala pragmática do regime, a trégua é uma tentativa de preservar o Estado e evitar destruição adicional; para os linha-dura, é um recuo que pode minar prestígio e autoridade, sobretudo do novo líder, Mojtaba Khamenei, pouco visto em público desde sua nomeação.

Politicamente, o episódio acende um sinal de alerta sobre coesão do poder iraniano. A administração buscou traduzir a trégua em vitória diplomática, mas enfrenta risco de perda de apoio entre milícias e setores conservadores do aparelho de segurança. No plano internacional, a janela de duas semanas cria espaço para contenção e conversas — sem garantir solução permanente — enquanto revela a influência de atores externos como Paquistão e China. O que resta em aberto é se o regime conseguirá capitalizar uma pausa operacional sem pagar um preço interno que fragilize sua capacidade de decisão.