O acordo anunciado por Donald Trump com a administração de Delcy Rodríguez trouxe ao centro da agenda internacional uma operação que, segundo os anúncios, daria aos Estados Unidos controle majoritário sobre 17 campos e cerca de 65 bilhões de barris de petróleo venezuelano. A divulgação pública foi marcada por promessas de investimentos superiores a US$ 100 bilhões e receitas bilionárias para o Estado venezuelano, além da afirmação de que a medida não custaria nada ao contribuinte americano. O pacto teria duração de 25 anos, segundo os comunicados oficiais.
O alcance político do negócio acelerou a polêmica. Nos últimos meses, a atuação de Washington em relação à Venezuela incluiu bloqueio marítimo, operações militares voltadas a prender o então presidente Nicolás Maduro e, agora, o reconhecimento — por parte dos EUA — da então vice-presidente Delcy Rodríguez como governante interina. A consequência imediata foi a reação virulenta em polos opostos: economistas e opositores denunciaram o que chamam de apropriação de ativos e acordo inconstitucional; líderes ligados ao chavismo acusaram opositores internos de traição e classificaram o pacto como entreguista.
Críticas técnicas se somaram à disputa política. Especialistas lembraram que 65 bilhões de barris correspondem a cerca de 21,5% das reservas estimadas da Venezuela (aproximadamente 303 bilhões, segundo a EIA). O economista Francisco Rodríguez calculou que a receita fiscal prevista pelo acordo seria equivalente a apenas US$ 3,22 por barril — cerca de 4,7% do preço atual —, nível inferior às taxas de royalties observadas em concessões históricas. A comparação com concessões da era de Juan Vicente Gómez foi evocada para sublinhar a magnitude do que alguns consideram regressão nos termos de exploração.
Além do impacto econômico, o pacto acende alerta político: para a oposição venezuelana e para parte do espectro internacional, o negócio complica a narrativa de defesa da democracia que justificou sanções e pressões recentes; para o governo anunciado, representa uma entrada de recursos imediatos, porém a custo de questionamentos sobre soberania e legalidade. O desenlace dependerá de transparência sobre os termos, de eventuais contestações legais e da reação de parlamentos e atores internacionais — fatores que definirão se o acordo será duradouro ou caso político conflagrado.