Carlo Ancelotti desembarcou no futebol brasileiro sabendo que precisava transpor barreiras culturais antes mesmo de iniciar o Mundial. Técnico com passagens por gigantes europeus e experiência com 43 jogadores brasileiros ao longo da carreira, ele também teve atuação limitada na América do Sul. Para minimizar a distância, contratou um professor e se comprometeu com quatro aulas semanais de português — um gesto para ganhar interlocução com atletas, técnicos e a torcida.

O resultado em campo, ao menos momentaneamente, ajudou: a seleção aplicou 6 a 2 no Panamá no domingo, no penúltimo amistoso antes da Copa. Rayan marcou seu primeiro gol pela equipe, Igor Thiago converteu pênalti e Vinícius Jr., Casemiro, Lucas Paquetá e Danilo também balançaram as redes. A goleada renovou otimismo, mas não apaga a natureza amistosa do teste nem garante respostas para os desafios maiores que virão.

A aposta em Ancelotti tem justificativas objetivas: o técnico soma cinco títulos da Liga dos Campeões e ganhou em todas as cinco grandes ligas europeias, atributo que, segundo analistas como Walter Casagrande, traz autoridade num vestiário repleto de estrelas. Ainda assim, a escolha de um estrangeiro reacendeu críticas internas sobre identidade e oportunidades para treinadores locais — um debate que acompanha a contratação desde o início.

As reações públicas de ídolos e colegas deram o tom desse desconforto. Cafu afirmou que preferia um técnico brasileiro, e Émerson Leão criticou a presença de treinadores estrangeiros no país; o clima foi suficiente para que o filho e auxiliar de Ancelotti se retirasse de um evento. No curto prazo, aprender português e vencer amistosos ajudam a reduzir resistência. No médio prazo, porém, o técnico terá de traduzir currículo e carisma em resultados claros para impedir que o Brasil prolongue um jejum que dura desde 2002.