Em abril, quando a BYD superou a Volkswagen nas vendas no varejo e consolidou salto estratégico no mercado brasileiro, a empresa também enfrentou um capítulo grave de imagem: entrou temporariamente no cadastro de empregadores flagrados por trabalho análogo à escravidão. O episódio remete a uma operação realizada no fim de 2024, que retirou 163 trabalhadores chineses de um canteiro da montadora em Camaçari, na região metropolitana de Salvador.
O processo de investigação começou com denúncias e evidências reveladas à imprensa: um vídeo que mostrava um chefe agredindo colegas antecipou a segunda operação de fiscalização. A primeira visita ocorreu em 27 de novembro de 2024, sem constatar irregularidades. Dois sábios depois, diante de novas informações, Ministério Público do Trabalho e a Auditoria-Fiscal do Trabalho organizaram uma força-tarefa. Em 9 de dezembro voltou-se ao canteiro com equipe multidisciplinar — procuradores, auditores, policiais federais e rodoviários, defensoria e intérpretes de mandarim —, e o trabalho culminou no resgate relatado no relatório ao qual a BBC teve acesso.
A inclusão da BYD no chamado cadastro de 'lista suja' durou três dias: a empresa obteve liminar da Justiça para suspender o registro até o julgamento definitivo do caso. O episódio ilustra prática crescente entre empresas que recorrem ao Judiciário para afastar temporariamente efeitos administrativos que trazem risco reputacional e administrativo — entre eles dificuldade de acesso a linhas de crédito por políticas de instituições financeiras. A BYD e o Ministério do Trabalho não responderam ao pedido de esclarecimentos feito pela reportagem na ocasião.
A repercussão política foi imediata em Brasília: o secretário de Inspeção do Trabalho, Luiz Felipe Brandão de Mello, foi exonerado dias depois. A pasta tratou a saída como ato administrativo de gestão; a associação de auditores-fiscais (Anafitra) vê ligação direta entre a demissão e a inclusão da BYD na lista, apontando para interferências do ministro Luiz Marinho na atuação técnica — inclusive citando episódio anterior envolvendo outra grande empresa. O caso levanta questões institucionais sobre a independência das inspeções, a proteção de servidores que atuam em fiscalizações sensíveis e a necessidade de transparência para evitar que decisões sobre trabalho escravo se transformem em moeda política.