Os governos do Brasil e dos Estados Unidos acertaram a criação de um grupo de trabalho destinado a tratar especificamente das tarifas aplicadas por Washington a parte das exportações brasileiras e de outros entraves na relação comercial bilateral. O acordo foi anunciado após encontro em Milwaukee entre os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores) e Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, na margem da reunião ministerial do G20.

A iniciativa surge no rastro das medidas anunciadas pelos EUA em julho, que incluíram uma sobretaxa de 25% com base na Seção 301 sobre determinados produtos brasileiros e alíquotas adicionais de 10% ou 12,5% vinculadas a regras sobre trabalho forçado. Segundo o MDIC, essas ações atingem parcelas das exportações brasileiras e, por isso, a criação do grupo acende alerta para setores exportadores e amplia pressão sobre o governo para buscar respostas efetivas sem romper o canal diplomático com Washington.

O formato negociado dá aos americanos a prerrogativa de encaminhar nas próximas semanas um documento que deverá definir o escopo das conversas, incluindo temas tarifários e não tarifários. Isso coloca o Brasil em posição em que parte da agenda depende de uma proposta externa — circunstância que pode limitar alternativas imediatas e transferir ao processo negociador o peso de controlar efeitos econômicos e políticos domésticos. Para o governo, a aposta é resolver diferenças por meio do diálogo, mas a complexidade do tema expõe riscos reputacionais e custos concretos para empresas e cadeias produtivas.

Os próximos passos são claros: a expectativa oficial é que os EUA apresentem a proposta do escopo e o grupo comece a mapear soluções técnicas e comerciais. Para além do formato, o teste será pragmático: reverter ou mitigar as sobretaxas, preservar mercados e reduzir o impacto sobre exportadores. Se não houver avanços, a manutenção das medidas americanas tende a gerar custo político e econômico interno, cobrando respostas que vão além da retórica de aproximação entre Brasília e Washington.