O que parecia um cassino nas margens da fronteira cambojana escondia uma operação sofisticada de fraudes: salas inteiras reproduziam ambientes oficiais e bancários de outros países para enganar e extorquir vítimas pela internet. Quem entrou no Royal Hill — segundo inspeção de militares tailandeses que ocuparam o local — encontrou réplicas de delegacias estrangeiras, orientações em português e material de convencimento preparado para diferentes mercados.

Militares da Tailândia levaram equipes de imprensa ao complexo para justificar os ataques aéreos que atingiram o prédio em dezembro, alegando que drones foram lançados da região durante o confronto fronteiriço. O governo cambojano protestou pela violação de território, mas os relatos sobre a escala e o aparato da operação colocam o caso no centro de um problema transnacional: criminosos que operam com estrutura quase empresarial, milhares de trabalhadores e rotas que cruzam fronteiras.

Militares tailandeses disseram que levaram jornalistas ao local para demonstrar a dimensão da operação criminosa.

Relatos de funcionários que fugiram de outros cassinos próximos já vinham apontando abusos e controle severo sobre funcionários; no Royal Hill, a descrição é de uma fábrica de golpes com hierarquia, disciplina e foco em resultados. A exposição do local após o abandono — tigelas de comida intocadas, papéis e computadores — reforça a dimensão industrial do esquema, que, segundo as autoridades tailandesas, fraudou milhões em diferentes países.

O episódio também destaca a conexão entre essa economia ilegal e os elos com a elite local. Nomes de magnatas do setor de cassinos no Camboja já figuram em listas de sanções internacionais, enquanto outros proprietários mantêm perfil discreto mas receberam títulos honoríficos concedidos pelo regime. Esse arranjo cria uma zona de impunidade que facilita a reprodução de crimes em larga escala e dificulta a ação coordenada contra redes transnacionais.

Para além do choque imediato entre Bangkok e Phnom Penh, a cena no Royal Hill levanta três desafios concretos: a necessidade de cooperação regional para desmontar áreas de impunidade; responsabilidade por abusos e tráfico de pessoas associados às operações; e um esforço internacional para punir beneficiários e proteger vítimas. Sem respostas multilaterais, complexos como esse tendem a ressurgir em outras fronteiras.

O governo cambojano protestou pela ocupação, enquanto autoridades da Tailândia afirmam que o complexo era usado para lançar ataques por drones.