A história de Wang Zhuang, de 37 anos, ilustra o nó social e econômico que a China enfrenta: pressionado pela dificuldade de encontrar parceira em uma sociedade com 30 milhões de homens a mais que mulheres, ele recorreu a uma agência matrimonial em Guizhou e terminou envolvido num casamento-relâmpago que lhe custou economias e bem-estar. Apresentado a uma mulher em Guiyang, pagou à agência poucas horas depois de ser mostrado a várias candidatas. Meses depois descobriu que informações essenciais — histórico conjugal, filhos, dívidas e problemas de saúde — haviam sido ocultadas, resultado, segundo ele, de promessas e mentiras da intermediária.

O caso de Wang não é isolado. A política do filho único, aplicada por décadas e revista apenas em janeiro de 2016, somada à preferência tradicional por filhos homens, produziu um desequilíbrio de gênero que tornou muitos homens, especialmente em cidades pequenas e áreas rurais, vulneráveis a soluções rápidas. Exigências familiares por bens como casa e carro e o aumento do chamado 'preço da noiva' ampliam a pressão financeira sobre o homem que busca casamento, o que torna atraente a promessa de agências que oferecem parceiras recatadas e prontas para se instalar.

O mercado das agências matrimoniais cresceu rápido o suficiente para despertar atenção estatal. Entre janeiro de 2024 e março de 2025, promotores lidaram com casos envolvendo 1.546 pessoas por crimes vinculados ao setor; recentemente cinco órgãos do governo coordenaram uma operação nacional para investigar práticas ilícitas. Há relatos de esquemas que usaram garçonetes de karaokê como isca para fraudar vítimas — um caso investigado envolveu 128 lesados e mais de 2,5 milhões de yuans.

O fenômeno expõe uma consequência direta de políticas demográficas e de falta de resposta estruturada: além do prejuízo individual e do trauma social, as fraudes indicam fragilidade regulatória e risco de erosão da confiança em instituições privadas e públicas. Para além das operações policiais, o desafio exige medidas que vão desde proteção ao consumidor e regulação do setor de encontros até políticas demográficas e sociais capazes de reduzir o descompasso entre oferta e demanda de parceiros, sob pena de o país ver crescer um mercado predatório em torno da solidão e da pressão social.