Maria preparou-se para comemorar o aniversário com a única vela do bolo — a casa em Maracaibo ficou sem eletricidade entre 20h e meia-noite. A cena, agora corriqueira na segunda maior cidade do país, ilustra como venezuelanos passaram a depender de lâmpadas com bateria e ventiladores portáteis para enfrentar temperaturas médias anuais próximas de 30 °C.

Dados recentes reforçam a dimensão do problema: a Pesquisa de Condições de Vida (Encovi) de 2025 aponta que nove em cada 10 residências relataram interrupções no fornecimento de energia, e 4 em cada 10 disseram sofrer cortes diários que duram várias horas. O Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais registrou 36 protestos por falta de eletricidade no primeiro trimestre de 2026 — 24 apenas em março — destacando o impacto social e econômico dos apagões.

A explicação oficial, do ministro Rolando Alcalá, atribui a crise a um aumento de demanda — 15.579 MW no primeiro trimestre — resultado da reativação comercial e do consumo doméstico. Mas o engenheiro Miguel Lara, que trabalhou por três décadas na coordenação do sistema elétrico venezuelano, observa que esse nível representa um acréscimo de pouco mais de 5% sobre 2025 (cerca de 14.724 MW). Se uma expansão relativamente modesta da demanda gera cortes prolongados, o problema parece estar na capacidade, manutenção e gestão do sistema, não apenas no consumo.

O quadro tem consequências concretas: prejudica atividades comerciais, danifica equipamentos e aumenta custos para famílias e empresas, ao mesmo tempo em que mina a credibilidade das promessas de recuperação econômica e petrolífera do governo interino. Os protestos e a frequência dos desligamentos acendem um alerta sobre a urgência de investimentos, transparência e gestão técnica eficazes. Sem medidas claras e recursos direcionados para recuperar usinas, linhas e operação, a perspectiva de retomada sustentável do país fica comprometida — com preço político e econômico para quem governa.