Um relatório anual apoiado pela ONU e por agências humanitárias revela que dois terços das pessoas em situação de insegurança alimentar aguda em 2025 estavam concentradas em apenas 10 países — entre eles Afeganistão, Nigéria e República Democrática do Congo — e que um terço desse total vivia no Sudão, na Nigéria e na RDC. O documento, em sua décima edição, contabiliza 266 milhões de pessoas em níveis elevados de insegurança alimentar aguda em 47 países ou territórios.

Os autores do relatório destacam os conflitos como o principal motor da emergência alimentar. Além da violência, fenômenos climáticos extremos e choques no mercado global de insumos agrícolas já alteram a dinâmica produtiva. A guerra no Oriente Médio e o bloqueio do Estreito de Ormuz elevaram os custos de fertilizantes, impactando diretamente a próxima safra em países mais vulneráveis, num momento em que muitas regiões entram na temporada de plantio.

O documento também chama atenção para a redução significativa dos recursos destinados à ajuda humanitária, num cenário em que novos deslocamentos e a escalada de crises podem multiplicar demandas. Especialistas citados no relatório apelam por investimentos direcionados aos pequenos agricultores — em irrigação e sementes mais resistentes —, alternativa necessária para mitigar perdas e reduzir a dependência de importações caras de fertilizantes.

O padrão de concentração da fome em poucos países tem efeitos políticos e institucionais claros: pressiona países doadores, sobrecarrega vizinhos que recebem refugiados e testa a capacidade de resposta de agências multilaterais. Embora haja sinais de melhoria pontual em lugares como Bangladesh e Síria, essas vitórias foram compensadas por deteriorações notáveis em Afeganistão, RDC, Mianmar e Zimbábue. O relatório funciona como retrato do momento e acende alerta para 2026: sem recomposição de financiamento e ações práticas voltadas ao campo, a situação tende a se agravar.